sábado, setembro 23, 2006

Um Segundo... Uma Revolta

O olhar de um segundo foi o bastante para despertar uma angustia tremenda. Foi o bastante para uma dor interior se apoderar de mim. Foi o bastante para a revolta tomar conta de mim.
Ia na rua apressada, como sempre, para comer rapidamente uma sopa e seguir para mais uma aula de inglês, aproveitando bem o tempo que para mim é escasso. De repente os meus olhos chocaram numa criança, sentada no passeio, a pedir. Não era um menino como os outros. Era um menino surdo-mudo, olhando o vazio. Um olhar profundamente triste. Não pestanejava. Parecia alheio a tudo. Fiquei petrificada com aquele olhar. Recompus-me e segui em frente porque tenho por princípio não dar esmolas na rua. Apenas, faço questão de comprar o jornal aos meninos do Gaiato. Segui para a pastelaria, pedi a sopa mas não consegui comer. Aquele olhar, aquela tristeza imensa não me saía da cabeça. Levantei-me e corri em direcção ao menino que se encontrava na mesma posição, com os mesmos olhos tristes. Tirei da carteira umas moedas e coloquei na lata. O tilintar das moedas afligiu-me mas ao menino não fez confusão nenhuma porque ele não ouve. Manteve-se estátua! Aquele olhar era confrangedor! Quis gritar de revolta por não ser capaz de ajudar esta criança. Eu sei, já me cruzei com meninos a pedirem ou a venderem pensos, mas este menino era especial. Este menino, surdo-mudo, não tinha como verbalizar, como expor o seu sofrimento. Sim, a sua dor estava estampada no seu olhar.

2 Comments:

Blogger GK said...

Já tive momentos assim. Eu também não costumo dr esmolas na rua a não ser que sinta que TEM de ser, como no caso que descreves. E sempre que o fiz obtive respostas incríveis, incríveis de sinceras e gratas. É devastador pensar que ma moeda que não muda o nosso dia em nada, pode proporcionar o único alimento de alguém...

6:00 da manhã, setembro 24, 2006  
Blogger SoNosCredita said...

só pelo relato, impressionante!

2:01 da tarde, setembro 26, 2006  

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